Monday, September 26, 2005

Emmanuel Kant

A Ciência e a Metafísica
Emmanuel Kant
(1724-1804)
O grande filósofo da modernidade
Trabalho de pesquisa
realização Wellington Aves de Lama.
Finalidade estudo e ampliação de conhecimentos
12 -07 200 concluído 22,26,27 e 28 do 02 de 2004






Immanuel Kant (1724-1804) foi um dos mais importantes e influentes filósofos da modernidade. Seus estudos e ensinamentos nos campos da Metafísica, Epistemologia, Ética e Estética tiveram grande impacto sobre a maioria dos movimentos filosóficos posteriores.




Sua Vida


Kant abordava o estudo da religião de forma bastante diferente daquela ensinada e aceita na época. Seus ensinamentos eram baseados no racionalismo e não na revelação , ou seja, ele baseava suas crenças religiosas principalmente na lógica, e nao na simples fé. Em 1792, Frederico Guilherme II, Rei da Pressia, proibiu Kant de escrever ou ensinar assuntos religiosos - ordem que Kant obedeceu até a morte do rei, que ocorreu cinco anos depois. Em 1798, Kant publicou suas visões religiosas.
Immanuel Kant (1724 - 1804)

Filósofo alemão, considerado um dos maiores pensadores de todos os tempos. Nasceu em Königsberg, na Prússia, filho de um pequeno artesão. Estudou no Colégio Fridericianum e, posteriormente, na Universidade de Königsberg, onde passou a lecionar em 1755, tornando-se catedrático em 1770. Jamais deixou sua cidade natal, excetuando-se o período em que trabalhou como preceptor em residências localizadas nas cercanias da cidade. Sua vida não contém dados marcantes, tendo sido totalmente devotada ao saber e à investigação filosófica. Escreveu inúmeras obras. Dentre estas, citamos alguns de seus mais importantes escritos: História geral da natureza e teoria do cé;, Sonhos de um visionário, interpretados mediante os sonhos da metafísica; Dissertação sobre a forma e os princípios do mundo sensível e do mundo inteligível; Prolegômenos a qualquer metafísica futura que possa vir a ser interpretada como ciência; Fundamentação da metafísica dos costumes; Crítica da razão pura; Crítica da razão prática; Crítica da faculdade de julgar; estes três últimos títulos sendo, contudo, considerados as obras centrais de sua filosofia.

Cada uma das três grandes obras que formam o sistema crítico de Kant, o “tribunal da razão”, possui como tema uma área ou subdivisão do “ser”, articulando assim as três regiões do estudo metafísico: a Crítica da Razão pura (1781) investiga a questão do conhecimento da verdade; a Crítica da Razão prática (1788) investiga a conduta moral, cuja finalidade é o bem, através do imperativo categórico e da liberdade da razão; e a Crítica da Faculdade de Julgar (1790) pensa a experiência estética como uma atitude contemplativa, de caráter desinteressado e não conceitual.

O objetivo da Crítica da Razão pura é fundamentar o conhecimento metafísico como ciência, através de uma demonstração da possibilidade dos juízos sintéticos a priori. Compreendendo a metafísica como a ciência que permite avançar do conhecimento sensível para o do supra-sensível, Kant estrutura o desenvolvimento deste saber através de três momentos fundamentais: o dogmatismo, o ceticismo e o criticismo. O dogmatismo, cujos principais representantes são Leibniz e Wolff, é constituído pela lógica geral, que vai buscar o conhecimento do supra-sensível através de uma dialética formal, fundada apenas no princípio de não contradição lógica de seus conceitos, sem portanto indagar de que modo e com que direito chegou-se a estes conceitos. Abstraindo do conteúdo do conhecimento, isto é, de sua referência ao objeto, o dogmatismo só considera a forma dos conhecimentos entre si, a forma do pensamento em geral. Para Kant, tal momento da metafísica deu o primeiro passo para a investigação da razão, por indicar a distinção entre os juízos analíticos e os juízos sintéticos em geral. O segundo passo da metafísica foi, ao contrário, um retrocesso. Este se constituiu através da crítica cética de que todo conhecimento, supostamente chamado de racional, que tem como fundamento a experiência empírica. Kant confessa que foi David Hume quem interrompeu o seu sono dogmático. Ao questionar a relação causa e efeito, Hume indica que não é a razão que pensa a priori e a partir dos conceito uma tal relação, mas que esta é compreendida pelo hábito proveniente da repetição empírica de tal conexão. Assim, para Hume, os conceitos da lógica dogmática não passam de simples ficções e todos os seus conhecimentos, pretensamente a priori, não são senão experiências comuns, falsificadas em leis gerais; o que o faz concluir que não há, e nem pode haver, um conhecimento metafísico. O segundo passo do progresso da metafísica consiste, para Kant, no fato de Hume o ter despertado para a questão: "como são possíveis os juízos sintéticos a priori?" O terceiro e último passo da metafísica, aquele que propõe a sua fundamentação como ciência, constitui o próprio pensamento crítico da filosofia transcendental de Kant. A crítica da razão é o procedimento que conduz a metafísica natural e espontânea do pensamento humano à ciência, buscando superar o dogmatismo da dialética especulativa e puramente formal, sem cair em um ceticismo empírico que nega toda possibilidade do conhecimento puro, a priori. A crítica transcendental de Kant propõe uma avaliação de nosso conhecimento, através de uma investigação que não se ocupa tanto dos objetos deste conhecimento, mas de nossa possibilidade de vir a conhecê-los a priori.

Para Kant, todo conhecimento é proposicional, sendo que há dois tipos de proposições, entendendo como proposição a ligação de um predicado com um sujeito: os juízos analíticos - proposições cujo predicado já estava latente no sujeito - e os juízos sintéticos - proposições cujo predicado é acrescido ao sujeito. Os primeiros, por serem juízos elucidativos, não ampliam o conhecimento contido no conceito (sujeito), apenas o elucidam analiticamente. Tais juízos, por serem teórico-analíticos, prescindem de toda experiência, sendo, neste sentido, juízos a priori. Como contrapartida lógica, os juízos da experiência como tais são todos sintéticos. Estes juízos acrescentam um predicado diferente no conceito, sendo esta síntese possível pela experiência; é na experiência que se fundamenta a ligação dos juízos sintéticos a posteriori (ou empíricos). Todavia, além dos juízos analíticos e dos empíricos, encontramos também, por exemplo na matemática e na física, os juízos sintéticos a priori, aqueles que não provém de nenhuma experiência, mas se caracterizam pelo fato de serem necessários e universais. Tais juízos, por serem puros e, assim, a priori, não tem a experiência como apoio para formar a síntese do predicado que amplia o conhecimento do conceito. Deste modo, Kant elabora a questão fundamental da Crítica da Razão pura, como são possíveis os juízos sintéticos a priori?, com o objetivo de, com esta demonstração, fundamentar a metafísica como ciência do supra-sensível.

O pensamento de Kant representa, para filosofia e para toda a história do homem ocidental, uma transformação que o próprio Kant nomeia de “revolução copernicana”: assim como, com Copérnico, o sol passa a ocupar o centro do universo, com Kant, o homem passa a ser o centro do que pode ser conhecido. Ao limitar ao humano o que pode ser conhecido, Kant pensa o homem como fundamento do real, permitindo que ele passe a elaborar, através de sua própria consciência, o sentido de suas ações e, assim, possa planejar racionalmente o desenvolvimento de seu destino.

Immanuel Kant (1724 - 1804)

Filósofo alemão, considerado um dos maiores pensadores de todos os tempos. Nasceu em Königsberg, na Prússia, filho de um pequeno artesão. Estudou no Colégio Fridericianum e, posteriormente, na Universidade de Königsberg, onde passou a lecionar em 1755, tornando-se catedrático em 1770. Jamais deixou sua cidade natal, excetuando-se o período em que trabalhou como preceptor em residências localizadas nas cercanias da cidade. Sua vida não contém dados marcantes, tendo sido totalmente devotada ao saber e à investigação filosófica. Escreveu inúmeras obras. Dentre estas, citamos alguns de seus mais importantes escritos: História geral da natureza e teoria do cé;, Sonhos de um visionário, interpretados mediante os sonhos da metafísica; Dissertação sobre a forma e os princípios do mundo sensível e do mundo inteligível; Prolegômenos a qualquer metafísica futura que possa vir a ser interpretada como ciência; Fundamentação da metafísica dos costumes; Crítica da razão pura; Crítica da razão prática; Crítica da faculdade de julgar; estes três últimos títulos sendo, contudo, considerados as obras centrais de sua filosofia.

Cada uma das três grandes obras que formam o sistema crítico de Kant, o “tribunal da razão”, possui como tema uma área ou subdivisão do “ser”, articulando assim as três regiões do estudo metafísico: a Crítica da Razão pura (1781) investiga a questão do conhecimento da verdade; a Crítica da Razão prática (1788) investiga a conduta moral, cuja finalidade é o bem, através do imperativo categórico e da liberdade da razão; e a Crítica da Faculdade de Julgar (1790) pensa a experiência estética como uma atitude contemplativa, de caráter desinteressado e não conceitual.

O objetivo da Crítica da Razão pura é fundamentar o conhecimento metafísico como ciência, através de uma demonstração da possibilidade dos juízos sintéticos a priori. Compreendendo a metafísica como a ciência que permite avançar do conhecimento sensível para o do supra-sensível, Kant estrutura o desenvolvimento deste saber através de três momentos fundamentais: o dogmatismo, o ceticismo e o criticismo. O dogmatismo, cujos principais representantes são Leibniz e Wolff, é constituído pela lógica geral, que vai buscar o conhecimento do supra-sensível através de uma dialética formal, fundada apenas no princípio de não contradição lógica de seus conceitos, sem portanto indagar de que modo e com que direito chegou-se a estes conceitos. Abstraindo do conteúdo do conhecimento, isto é, de sua referência ao objeto, o dogmatismo só considera a forma dos conhecimentos entre si, a forma do pensamento em geral. Para Kant, tal momento da metafísica deu o primeiro passo para a investigação da razão, por indicar a distinção entre os juízos analíticos e os juízos sintéticos em geral. O segundo passo da metafísica foi, ao contrário, um retrocesso. Este se constituiu através da crítica cética de que todo conhecimento, supostamente chamado de racional, que tem como fundamento a experiência empírica. Kant confessa que foi David Hume quem interrompeu o seu sono dogmático. Ao questionar a relação causa e efeito, Hume indica que não é a razão que pensa a priori e a partir dos conceito uma tal relação, mas que esta é compreendida pelo hábito proveniente da repetição empírica de tal conexão. Assim, para Hume, os conceitos da lógica dogmática não passam de simples ficções e todos os seus conhecimentos, pretensamente a priori, não são senão experiências comuns, falsificadas em leis gerais; o que o faz concluir que não há, e nem pode haver, um conhecimento metafísico. O segundo passo do progresso da metafísica consiste, para Kant, no fato de Hume o ter despertado para a questão: "como são possíveis os juízos sintéticos a priori?" O terceiro e último passo da metafísica, aquele que propõe a sua fundamentação como ciência, constitui o próprio pensamento crítico da filosofia transcendental de Kant. A crítica da razão é o procedimento que conduz a metafísica natural e espontânea do pensamento humano à ciência, buscando superar o dogmatismo da dialética especulativa e puramente formal, sem cair em um ceticismo empírico que nega toda possibilidade do conhecimento puro, a priori. A crítica transcendental de Kant propõe uma avaliação de nosso conhecimento, através de uma investigação que não se ocupa tanto dos objetos deste conhecimento, mas de nossa possibilidade de vir a conhecê-los a priori.

Para Kant, todo conhecimento é proposicional, sendo que há dois tipos de proposições, entendendo como proposição a ligação de um predicado com um sujeito: os juízos analíticos - proposições cujo predicado já estava latente no sujeito - e os juízos sintéticos - proposições cujo predicado é acrescido ao sujeito. Os primeiros, por serem juízos elucidativos, não ampliam o conhecimento contido no conceito (sujeito), apenas o elucidam analiticamente. Tais juízos, por serem teórico-analíticos, prescindem de toda experiência, sendo, neste sentido, juízos a priori. Como contrapartida lógica, os juízos da experiência como tais são todos sintéticos. Estes juízos acrescentam um predicado diferente no conceito, sendo esta síntese possível pela experiência; é na experiência que se fundamenta a ligação dos juízos sintéticos a posteriori (ou empíricos). Todavia, além dos juízos analíticos e dos empíricos, encontramos também, por exemplo na matemática e na física, os juízos sintéticos a priori, aqueles que não provém de nenhuma experiência, mas se caracterizam pelo fato de serem necessários e universais. Tais juízos, por serem puros e, assim, a priori, não tem a experiência como apoio para formar a síntese do predicado que amplia o conhecimento do conceito. Deste modo, Kant elabora a questão fundamental da Crítica da Razão pura, como são possíveis os juízos sintéticos a priori?, com o objetivo de, com esta demonstração, fundamentar a metafísica como ciência do supra-sensível.

O pensamento de Kant representa, para filosofia e para toda a história do homem ocidental, uma transformação que o próprio Kant nomeia de “revolução copernicana”: assim como, com Copérnico, o sol passa a ocupar o centro do universo, com Kant, o homem passa a ser o centro do que pode ser conhecido. Ao limitar ao humano o que pode ser conhecido, Kant pensa o homem como fundamento do real, permitindo que ele passe a elaborar, através de sua própria consciência, o sentido de suas ações e, assim, possa planejar racionalmente o desenvolvimento de seu destino. Kant faleceu em 12 de fevereiro de 1804.


OBRAS

As obras de Kant são bastante diversificadas. Abaixo, abordamos brevemente alguns de seus principais ensinamentos: os conceitos da Teoria do Conhecimento e da teoria da Moral e Ética.

Teoria do Conhecimento.

Em sua Teoria do Conhecimento, Kant classificou o tangível e o abstrato em dois grupos: 1 - aquilo que podemos conhecer; 2 - aquilo que são por si desconhecidas. As coisas que podemos conhecer são aquelas que as pessoas podem presenciar, tocar, ver e experimentar, como uma mesa ou um cachorro. Por outro lado, existem coisas que são desconhecidas por si próprias, como Deus e o conceito de liberdade, cujas existências, segundo Kant, se baseiam em pressuposições necessárias.

Kant afirmava que a eira do conhecimento é limitada ao mundo das experiências e que é inevitável que uma pessoa fracasse ao tentar conhecer coisas que são desconhecidas. Kant apresenta essa linha de pensamento em seu livro Critica da Razão Pura, estabelecendo que os traz grandes problemas da Metafísica são Deus, a liberdade e a imortalidade, pois nao são solucionáveis por meio do pensamento especulativo. De acordo com Kant, a existência de Deus e os conceitos de liberdade e imortalidade nao podem ser afirmados ou negados no campo teórico, nem podem ser cientificamente demonstrados. Porém, Kant expressou a necessidade da crença em Deus e nos conceitos de liberdade e imortalidade em sua filosofia moral. De acordo com Kant, a existência da moralidade depende exclusivamente da existência de Deus, da liberdade e imortalidade
Classificação do Pensamento

Kant dividiu o conhecimento humano em duas categorias: proposições analíticas e sintéticas.

Uma proposição analítica é aquela em que o predicado esta contido no sujeito, como no enunciado “nenhum dos solteiros é casado”. A verdade deste enunciado é evidente, esta presente no conceito e é descoberta simplesmente ao analisar os termos concedidos sem a necessidade de experiências avançadas. Por exemplo: “nenhum dos solteiros é casado” é uma verdade seja qual for nossa experiência, porque o significado de “não ser casado” ja esta presente no termo “solteiro”.

Kant acreditava principalmente em um conhecimento prévio, a priori, que é conquistado sem a necessidade da experiência. Um exemplo de uma proposição a priori é “dois mais dois é igual a quatro”. Entendemos esse conceito sem termos que fisicamente colocar dois e dois juntos. Kant destacou a importância do conhecimento a priori, afirmando ser ele uma parte essencial do conhecimento que não pode ser adquirido diretamente pela experiência.

Além da proposição analítica, Kant apresentou o conceito de proposição sintética. A proposição sintética não pode ser alcançada por meio de simples análise: ela exige experiência. Um exemplo desse conceito evidencia-se na frase “a garota é loira”. Para sabermos se a garota é realmente loira, é necessįrio uma experiência, pois não podemos ter certeza dessa afirmaēćo sem antes vê-la.

Através dessas afirmações, Kant tentou explicar a estrutura do conhecimento. A partir de Kant, originaram-se diversas discussões sobre a existźncia de um conhecimento a priori. As definiēões de conhecimento de Kant tiveram uma importāncia fundamental no estudo da Filosofia.
A filosofia moral de Kant afirma que a base para toda razćo moral é a capacidade do homem de agir racionalmente. O fundamento para esta lei de Kant é a crenēa de que uma pessoa deve comportar-se de forma igual a que ela esperaria que outra pessoa se comportasse na mesma situaēćo, tornando assim seu próprio comportamento uma lei universal.

Um exemplo disso:

Motoristas podem estacionar seus veķculos em fila dupla apenas em casos de emergźncia (por exemplo, com o propósito de resgatar uma pessoa). De acordo com a filosofia moral de Kant, essa lei deve-se aplicar a toda e qualquer pessoa que se encontre nessa mesma situaēćo. Isto significa que ninguém pode estacionar em fila dupla por motivo de preguiēa ou porque não encontrou uma vaga livre. Pois se todas as pessoas estacionassem em fila dupla, e isso se tornasse uma lei universal, o trānsito ficaria confuso e a cidade viraria um caos.
A situaēćo descrita acima exemplifica a lei moral de Kant que afirma que uma pessoa deve agir numa situaēćo da mesma forma que espera que todas as outras pessoas ajam.

A lei moral de Kant é baseada na idéia de que os seres humanos são racionais e independentes. Em sua obra, Metafķsicas da Ética (1797), Kant propõe que a razćo humana é a base da moralidade. Segundo Kant, toda aēćo deve ser tomada com um senso de responsabilidade ditado pela razćo.

Kant também afirmou que nenhuma aēćo baseada apenas na obediźncia da lei deve ser considerada como moral. A história comprovou esse conceito. Por exemplo: durante a Segunda Guerra Mundial, as pessoas que obedeciam ą lei nazista e seguiram as leis nazi-fascistas não agiram humana e eticamente. Matar e torturar seres humanos inocentes nunca são atos morais, mesmo que a lei de um paķs permita ou até encoraje isso.

Conclusão

Immanuel Kant é considerado o mais influente filósofo da modernidade. Suas idéias inspiraram outros grandes filósofos como Hegel e Marx. Seus ensinamentos influenciaram o Direito Internacional, a Pedagogia e a Sociologia; o impacto de suas obras é incalculįvel. Ele foi, sem dśvida, um dos mais influentes filósofos na história do mundo.

Portanto, só é permitido estacionar em fila dupla em casos de emergźncia. As exceēões a essa regra – os casos de emergźncia – ocorreriam em situaēões nas quais todas as pessoas estacionariam em fila dupla e/ou considerariam justificįvel o fato de outros terem feito isso.





Crítica da Razão Pura


Que podemos saber? Que devemos fazer? Que nos é lícito esperar? – Eis as 3 questões fundamentais a que pretende Kant com o seu sistema, dar uma solução definitiva.



Que podemos saber? A crítica negativista de Hume afigurou-se aos olhos do pensador alemão como uma vitória do ceticismo sobre o dogmatismo impotente. O edifício da ciência abalado desde os seus fundamentos ameaçava total ruína. Kant, a quem não satisfaziam nem as respostas do racionalismo de Leibniz nem as do empirismo de Locke, abalança-se à grande empresa de reconstruir a ciência sobre novos alicerces. Ele acusa os céticos e os dogmáticos de descurarem o problema fundamental da filosofia – a determinação dos limites naturais do conhecimento, a crítica das faculdades cognoscitivas. A sua solução constitui o criticismo transcendental. Criticismo, por ser o exame, a crise das faculdades cognicitivas, transcendental, por ter como fim a determinação dos elementos a priori do conhecimento, que precedem qualquer experiência.

Uma das mais importantes questões que dominam o pensamento de Kant é o problema do conhecimento humano, a questão do saber.

Na CRP (Crítica da Razão Pura) ele distingue duas formas básicas do ato de conhecer:

Conhecimento empírico ( a posteriori ) – aquele que se refere aos dados fornecidos pelos sentidos, isto é, que é posterior à experiência.

Conhecimento puro ( a priori ) – aquele que não depende de quaisquer dados dos sentidos, ou seja, que é anterior à experiência. Nasce puramente de uma operação racional. É uma afirmação universal. Além disso, é uma afirmação que, para ser válida, não depende de nenhuma condição específica. Trata-se de uma afirmação necessária.

O conhecimento puro, portanto, conduz a juízos universais e necessários, enquanto que o conhecimento empírico não possui essas características.

Os juízos, por sua vez, são classificados em 3 espécies: analíticos, sintéticos a posteriori e a priori.

a)Juízos analíticos, nos quais o predicado exprime uma noção já contida no sujeito – juízos necessariamente verdadeiros, mas de pouca utilidade para o progresso da ciência, por não serem extensivos, mas apenas explicativos do saber. Os juízos analíticos são a priori, independem da experiência. A relação entre sujeito e predicado é pensada por identidade e não contradição. Exemplo: 1. O quadrado tem quatro lados, 2. Todo solteiro não é casado, 3.Todos os corpos são extensos. Penso o predicado já implicitamente no conceito de sujeito e negá-lo tornaria o juízo internamente contraditório. Serve apenas para tornar mais claro, para explicitar melhor aquilo que já se conhece do sujeito. Não dependendo da experiência sensorial, é universal e necessário. Mas, a rigor é pouco útil, no sentido de que não conduz a conhecimentos novos.

b) Juízos sintéticos a posteriori – cujo predicado não está contido na idéia do sujeito, mas lhe é atribuído em virtude de uma experiência. Particulares e contingentes, os juízos a posteriori não têm nenhum alcance científico. Nesses juízos acrescenta-se ao sujeito algo de novo, que é o predicado. Assim, os juízos sintéticos enriquecem nossas informações e ampliam os conhecimentos. Exemplo: 1.Os corpos se movimentam, 2. Todos os corpos são pesados. Está diretamente ligado a nossa experiência sensorial. Tem uma validade sempre condicionada ao tempo e ao espaço em que se deu a experiência. Não produz, portanto, conhecimentos universais e necessários.

c) Juízos sintéticos a priori – sintéticos, porque não se achando a noção do predicado encerrada na compreensão do sujeito, a união dos dois termos se faz por uma verdadeira síntese mental; a priori, por serem universais e necessários e como tais não poderem provir da experiência singular e contigente. A esta última categoria de juízos pertencem as proposições científicas. Explicar-lhes a origem e o valor será pois, explicar a possibilidade da ciência. Segundo Kant a matemática e a física são disciplinas científicas por trabalharem com juízos sintéticos a priori. Mas como se formam tais juízos? Estes se fundamentam nos dados captados pelos sentidos e na organização desses dados, seguindo certas categorias apriorísticas do nosso entendimento. O conhecimento, portanto, é o resultado de uma síntese entre o sujeito que conhece e o objeto conhecido. É impossível conhecermos as coisas em si mesmas ( o ser em si). Só conhecemos as coisas tal como as percebemos ( o ser para nós ).

A contribuição inovadora de Kant foi ter estabelecido além dos juízos sintéticos a posteriori, a existência de juízos sintéticos a priori, que dizem respeito à possibilidade e estrutura da experiência e são universais e necessários ( por ex. "Tudo o que acontece tem sua causa") Da existência desse tipo de juízo dependeria a possibilidade não só da ciência, mas também da metafísica como ciência.

O ponto até onde podemos avançar independentemente de toda a experiência, no conhecimento a priori, é mostrado pelo brilhante exemplo da matemática. Verdades assim são verdadeiras antes da experiência; não dependem da experiência passada, presente ou futura. Portanto, são verdades absolutas e necessárias; é inconcebível que venham a ser falsas algum dia.

O papel que Kant atribuiu ao sujeito representou para a filosofia uma revolução comparável à de Copérnico na astronomia.

Antes de Kant, afirmava-se que a função de nossa mente era assimilar a realidade do mundo nessa operação, alguns filósofos só consideravam importante a atividade mental do sujeito ( racionalismo dogmático ), enquanto outros ressaltaram o papel determinante do objeto real exterior ( empirismo ).

Através de seu racionalismo crítico, Kant tentou formular a síntese entre sujeito e objeto, entre empirismo e racionalismo dogmático, mostrando que, ao conhecermos a realidade do mundo, participamos de sua construção mental, ou seja; das coisas conhecemos a priori só o que nós mesmos colocamos nelas.

O estudo das condições a priori do conhecimento foi denominado por Kant "transcendental", que nada tem a ver com o "transcendente", mas com aquelas condições que, de parte do sujeito, contribuem constitutivamente para a possibilidade da experiência.

Um princípio é transcendental enquanto enuncia uma condição geral a priori da experiência, considerada simplesmente como experiência e sem outra determinação particular. É metafísico se enuncia uma regra a priori que permita estender, sem novo recurso à experiência, o conhecimento de um objeto cujo conceito é já dado por este. Assim, o princípio a priori segundo o qual toda mudança de uma substância deve ter uma causa é transcendental; e o princípio segundo o qual toda mudança de uma substância corporal deve ter uma causa exterior é metafísico, porque supõe o conceito empírico de corpo enquanto objeto móvel no espaço.

A metafísica, depois de Kant, propôs um problema novo: o das relações do sujeito e do objeto, do pensamento e do ser. É esta a questão fundamental do nosso século.

Mediante a cooperação recíproca das faculdades entendimento e sensibilidade o sujeito produz a experiência, que é um conhecimento real e empírico constituído por uma conexão de percepções operada pelo entendimento. Assim, a experiência envolve dados empíricos a elementos a priori. Uma faculdade intermediária às duas anteriores, a imaginação, através da produção de imagens puras chamadas esquemas ( ex. O número) e graças a uma afinidade com aquelas, realiza a síntese das percepções e permite a aplicação dos conceitos do entendimento a esses produtos da sensibilidade. A sensibilidade apresenta-nos dados indeterminados, a imaginação os sintetiza sob o número 5 e o entendimento os identifica como sendo 5 maças.

O conhecimento consuma-se no momento em que percepções e conceitos são relacionados ou reunidos sob a forma de afirmações ou negação num juízo.

Como o juízo é a expressão do pensamento, a crítica deve começar por seu estudo. Kant conclui que somente o juízo sintético a priori é científico. A ciência, portanto, não provém da experiência, mas de algo pressuposto ao espírito, algo a priori. Explicar a origem e o valor desse juízo é, ao mesmo tempo, justificar a ciência. Como os temas de estudo da metafísica ( mundo, alma, Deus ) transcendem o mundo do sensível, nada do que lhes diz respeito pode ser provado e, portanto, a metafísica, como ciência, é impossível. A razão humana não pode conhecer os seres como são em si, mas somente o fenômeno, isto é, as aparências, aquilo que aparece. A ciência não pode penetrar no numero, no núcleo fundamental dos seres; permanecer no fenômeno. Está necessariamente limitada ao domínio da experiência espaço-temporal.

O processo a que, em decorrência, submeteu a metafísica resultou numa autolimitação da própria razão. Foi graças à consciência que a razão tomou dos seus próprios limites que ela se tornou crítica. E foi em conseqüência dessa consciência que Kant reservou ao entendimento o papel de faculdade de conhecimentos; e, por outro lado, reservou à razão duas funções novas: uma, tornando as idéias metafísicas instrumentos metodológicos de avaliação do progresso da experiência, chamando-as com isso "idéias regulativas"; outra, negando o caráter contraditório das idéias cosmológicas, por exemplo de liberdade e necessidade entre si, pela atribuição de uma dupla significação ao conceito de objeto: como fenômeno e como coisa em si, tornando com isso possível a aplicação daquelas idéias à prática moral.

O que a CRP realmente conseguira? Havia destruído o mundo ingênuo da ciência e o limitara, senão em grau, com certeza em alcance – limitando-o também a um mundo confessadamente de mera superfície e aparência, além do qual ele só podia resultar em ridículas "antinomias"; com isso, a ciência estava salva!




Kant nasceu, estudou, lecionou e morreu em Koenigsberg. Jamais deixou essa grande cidade da Prśssia Oriental, cidade universitįria e também centro comercial muito ativo para onde afluķam homens de nacionalidade diversa: poloneses, ingleses, holandeses. A vida de Kant foi austera (e regular como um relógio). Levantava-se ąs 5 horas da manhć, fosse inverno ou verćo, deitava-se todas as noites ąs dez horas e seguia o mesmo itinerįrio para ir de sua casa ą Universidade. Duas circunstāncias fizeram-no perder a hora: a publicaēćo do Contrato Social de Rosseau, em 1762, e a notķcia da vitória francesa em Valmy, em 1792. Segundo Fichte, Kant foi "a razćo pura encarnada".


Kant sofreu duas influźncias contraditórias: a influźncia do pietismo, protestantismo luterano de tendźncia mķstica e pessimista (que põe em relevo o poder do pecado e a necessidade de regeneraēćo), que foi a religićo da mće de Kant e de vįrios de seus mestres, e a influźncia do racionalismo: o de Leibnitz, que Wolf ensinara brilhantemente, e o da Aufklärung (a Universidade de Koenigsberg mantinha relaēões com a Academia Real de Berlim, tomada pelas novas idéias). Acrescentemos a literatura de Hume que "despertou Kant de seu sono dogmįtico" e a literatura de Russeau, que o sensibilizou em relaēćo do poder interior da consciźncia moral.


A primeira obra importante de Kant - assim como uma das śltimas, o Ensaio sobre o mal radical - consagra-o ao problema do mal: o Ensaio para introduzir em filosofia a noēćo de grandeza negativa (1763) opõe-se ao otimismo de Leibnitz, herdeiro do otimismo dos escolįticos, assim como do da Aufklärung. O mal não é a simples "privatio bone", mas o objeto muito positivo de uma liberdade malfazeja. Após uma obra em que Kant critica as ilusões de "visionįrio" de Swedenborg (que pretende tudo saber sobre o além), segue-se a Dissertaēćo de 1770, que vale a seu autor a nomeaēćo para o cargo de professor titular (professor "ordinįrio", como se diz nas universidades alemćs).


Nela, Kant distingue o conhecimento sensķvel (que abrange as instituiēões sensķveis) e o conhecimento inteligķvel (que trata das idéias metafķsicas). Em seguida, surgem as grandes obras da maturidade, onde o criticismo kantiano é exposto. Em 1781, temos a Crķtica da Razćo Pura, cuja segunda ediēćo, em 1787, explicarį suas intenēões "crķticas" (um estudo sobre os limites do conhecimento). Os prolegōmenos a toda metafķsica futura (1783) estćo para a Crķtica da Razćo Pura assim como a Investigaēćo sobre o entendimento de Hume está para o Tratado da Natureza Humana: uma simplificaēćo brilhante para o uso de um pśblico mais amplo. A Crķtica da Razćo Pura explica essencialmente porque as metafķsicas são voltadas ao fracasso e porque a razćo humana é impotente para conhecer o fundo das coisas. A moral de Kant é exposta nas obras que se seguem: o Fundamento da Metafķsica dos Costumes (1785) e a Crķtica da Razćo Prįtica (1788). Finalmente, a Crķtica do Juķzo (1790) trata das noēões de beleza (e da arte) e de finalidade, buscando, desse modo, uma passagem que una o mundo da natureza, submetido ą necessidade, ao mundo moral onde reina a liberdade.


Kant encontrara proteēćo e admiraēćo em Frederico II. Seu sucessor, Frederico-Guilherme II, menos independente dos meios devotos, inquietou-se com a obra publicada por Kant em 1793 e que, apesar do tķtulo, era profundamente espiritualista e anti-Aufklärung: A religićo nos limites da simples razćo. Ele fez com que Kant se obrigasse a nunca mais escrever sobre religićo, "como sśdito fiel de Sua Majestade". Kant, por mais inimigo que fosse da restriēćo mental, achou que essa promessa só o obrigaria durante o reinado desse prķncipe! E, após o advento de Frederico-Guilherme III, não hesitou em tratar, no Conflito das Faculdades (1798), do problema das relaēões entre a religićo natural e a religićo revelada! Dentre suas śltimas obras citamos A doutrina do direito, A doutrina da virtude e seu Ensaio filosófico sobre a paz perpétua (1795).

A Ciência e a Metafísica


O método de Kant é a "crķtica", isto é, a anįlise reflexiva. Consiste em remontar do conhecimento ąs condiēões que o tornam eventualmente legķtimo. Em nenhum momento Kant duvida da verdade da fķsica de Newton, assim como do valor das regras morais que sua mće e seus mestres lhe haviam ensinado. Não estćo, todos os bons espķritos, de acordo quanto ą verdade das leis de Newton? Do mesmo modo todos concordam que é preciso ser justo, que a coragem vale mais do que do que a covardia, que não se deve mentir, etc... As verdades da ciźncia newtoniana, assim como as verdades morais, são necessįrias (não podem não ser) e universais (valem para todos os homens e em todos os tempos). Mas, sobre que se fundam tais verdades? Em que condiēões são elas racionalmente justificadas? Em compensaēćo, as verdades da metafķsica são objeto de incessantes discussões. Os maiores pensadores estćo em desacordo quanto ąs proposiēões da metafķsica. Por que esse fracasso?


Os juízo rigorosamente verdadeiros, isto é, necessários e universais, são a priori, isto é independentes dos azares da experiência, sempre particular e contingente. Ą primeira vista, parece evidente que esses juízo a priori são juízo analíticos. Juízo analítico é aquele cujo predicado está contido no sujeito. Um triāngulo é uma figura de trás ângulos: basta-me analisar a própria definiēćo desse termo para dizê-lo. Em compensaēćo, os juízo sintéticos, aqueles cujo atributo enriquece o sujeito (por exemplo: esta régua é verde), são naturalmente a posteriori; só sei que a régua é verde porque a vi. Eis um conhecimento sintético a posteirori que nada tem de necessįrio (pois sei que a régua poderia não ser verde) nem de universal (pois todas as réguas não são verdes).


Entretanto, também existem (este enigma é o ponto de partida de Kant) juízo que são, ao mesmo tempo, sintéticos e a priori! Por exemplo:a soma dos āngulos de um triāngulo equivale a dois retos. Eis um juķzo sintético (o valor dessa soma de āngulos acrescenta algo ą idéia de triāngulo) que, no entanto, é a priori. De fato eu não tenho necessidade de uma constataēćo experimental para conhecer essa propriedade. Tomo conhecimento dela sem ter necessidade de medir os āngulos com um transferidor. Faēo-o por intermédio de uma demonstraēćo rigorosa. Também em fķsica, eu digo que o aquecimento da įgua é a causa necessįria de sua ebuliēćo (se não houvesse aķ senão uma constataēćo empķrica, como acreditou Hume, toda ciźncia, enquanto verdade necessįria e universal, estaria anulada). Como se explica que tais juízo sintéticos e a priori sejam possķveis?


Eu demonstro o valor da soma dos āngulos do triāngulo fazendo uma construēćo no espaēo. Mas por que a demonstraēćo se opera tćo bem em minha folha de papel quanto no quadro negro... ou quanto no solo em que Sócrates traēava figuras geométricas para um escravo? É porque o espaēo, assim como o tempo, é um quadro que faz parte da própria estrutura de meu espķrito. O espaēo e o tempo são quadros a priori, necessįrios e universais de minha percepēćo (o que Kant mostra na primeira parte da Crķtica da Razćo Pura, denominada Estética transcendental. Estética significa teoria da percepēćo, enquanto transcendental significa a priori, isto é, simultaneamente anterior ą experiência e condiēćo da experiência). O espaēo e o tempo não são, para mim, aquisiēões da experiência. São quadros a priori de meu espķrito, nos quais a experiência vem se depositar. Eis por que as construēões espaciais do geōmetra, por mais sintéticas que sejam, são a priori, necessįrias e universais. Mas o caso da fķsica é mais complexo. Aqui, eu falo não só do quadro a priori da experiência, mas, ainda, dos próprios fenōmenos que nela ocorrem. Para dizer que o calor faz ferver a įgua, é preciso que eu constate. Como, entćo, os juízo do fķsico podem ser a priori, necessįrios e universais?


É porque, responde Kant, as regras, as categorias, pelas quais unificamos os fenōmenos esparsos na experiência, são exigźncias a priori do nosso espķrito. Os fenōmenos, eles próprios, são dados a posteriori, mas o espķrito possui, antes de toda experiência concreta, uma exigźncia de unificaēćo dos fenōmenos entre si, uma exigźncia de explicaēćo por meio de causas e efeitos. Essas categorias são necessįrias e universais. O próprio Hume, ao pretender que o hįbito é a causa de nossa crenēa na causalidade, não emprega necessariamente a categoria a priori de causa na crķtica que nos oferece? "Todas as intuiēões sensķveis estćo submetidas ąs categorias como ąs śnicas condiēões sob as quais a diversidade da intuiēćo pode unificar-se em uma consciźncia". Assim sendo, a experiência nos fornece a matéria de nosso conhecimento, mas é nosso espķrito que, por um lado, dispõe a experiência em seu quadro espacio-temporal (o que Kant mostrarį na Estética transcendental) e, por outro, imprime-lhe ordem e coerźncia por intermédio de suas categorias (o que Kant mostra na Analķtica transcendental). Aquilo a que denominamos experiência não é algo que o espķrito, tal como cera mole, receberia passivamente. É o próprio espķrito que, graēas ąs suas estruturas a priori, constrói a ordem do universo. Tudo o que nos aparece bem relacionado na natureza, foi relacionado pelo espķrito humano. É a isto que Kant chama de sua revoluēćo copernicana. Não é o Sol, dissera Copérnico, que gira em torno da Terra, mas é esta que gira em torno daquele. O conhecimento, diz Kant, não é o reflexo do objeto exterior. É o próprio espķrito humano que constrói - com os dados do conhecimento sensķvel - o objeto do seu saber.


Na terceira parte de sua Crķtica da Razćo Pura, na dialética transcendental, Kant se interroga sobre o valor do conhecimento metafķsico. As anįlises precedentes, ao fundamentar solidamente o conhecimento, limitam o seu alcance. O que é fundamentado é o conhecimento cientķfico, que se limita a por em ordem, graēas ąs categorias, os materiais que lhe são fornecidos pela intuiēćo sensķvel.


No entanto, diz Kant, é por isso que não conhecemos o fundo das coisas. Só conhecemos o mundo refratado através dos quadros subjetivos do espaēo e do tempo. Só conhecemos os fenōmenos e não as coisas em si ou noumenos. As śnicas intuiēões de que dispomos são as intuiēões sensķveis. Sem as categorias, as intuiēões sensķveis seriam "cegas", isto é, desordenadas e confusas, mas sem as intuiēões sensķveis concretas as categorias seriam "vazias", isto é, não teriam nada para unificar. Pretender como Platćo, Descartes ou Spinoza que a razćo humana tem intuiēões fora e acima do mundo sensķvel, é passar por "visionįrio" e se iludir com quimeras: "A pomba ligeira, que em seu vōo livre fende os ares de cuja resistźncia se ressente, poderia imaginar que voaria ainda melhor no vįcuo. Foi assim que Platćo se aventurou nas asas das idéias, nos espaēos vazios da razćo pura. Não se apercebia que, apesar de todos os seus esforēos, não abria nenhum caminho, uma vez que não tinha ponto de apoio em que pudesse aplicar suas forēas".


Entretanto, a razćo não deixa de construir sistemas metafķsicos porque sua vocaēćo própria é buscar unificar incessantemente, mesmo além de toda experiência possķvel. Ela inventa o mito de uma "alma-substāncia" porque supõe realizada a unificaēćo completa dos meus estados d'alma no tempo e o mito de um Deus criador porque busca um fundamento do mundo que seja a unificaēćo total do que se passa neste mundo... Mas privada de qualquer ponto de apoio na experiência, a razćo, como louca, perde-se nas antinomias, demonstrando, contrįria e favoravelmente, tanto a tese quanto a antķtese (por exemplo: o universo tem um comeēo? Sim pois o infinito para trįs é impossķvel, daķ a necessidade de um ponto de partida. Não, pois eu sempre posso me perguntar: que havia antes do comeēo do universo?). Enquanto o cientista faz um uso legķtimo da causalidade, que ele emprega para unificar fenōmenos dados na experiência (aquecimento e ebuliēćo), o metafķsico abusa da causalidade na medida em que se afasta deliberadamente da experiência concreta (quando imagino um Deus como causa do mundo, afasto-me da experiência, pois so o mundo é objeto de minha experiência). O princķpio da causalidade, convite ą descoberta, não deve servir de permissão para inventar.


A Moral de Kant


É só no domķnio da moral que a razćo poderį, legitimamente, manifestar-se em toda sua pujanēa. A razćo teórica tinha necessidade da experiência para não se perder no vįcuo da metafķsica. A razćo prįtica, isto é, ética, deve ao contrįrio, ultrapassar, para ser ela própria, tudo que seja sensķvel ou empķrico.


Toda aēćo que toma seus móveis da sensibilidade, dos desejos empķricos, é estranha ą moral, mesmo que essa aēćo seja materialmente boa. Por exemplo: se me empenho por alguém por cįlculo interessado ou mesmo por afeiēćo, minha conduta não é moral. Com efeito, amanhć, meus cįlculos e meus sentimentos espontāneos poderiam levar-me a atos contrįrios. A vontade que tem por fim o prazer, a felicidade, fica submetida ąs flutuaēões de minha natureza. Nesse ponto, Kant se opõe não só ao naturalismo dos filósofos iluministas, mas, também, ą ontologia otimista de São Tomįs, para quem a felicidade é o fim legķtimo de todas as nossas aēões. Em Kant, hį o que Hegel mais tarde denominarį uma visão oral do mundo que afasta a ética dos equķvocos da natureza. O imperativo moral não é um imperativo hipotético que submeteria o bem ao desejo (cumpre teu dever se nele satisfazes teu interesse, ou entćo, se teus sentimentos espontāneos a ele te conduzem), mas o imperativo categórico: Cumpre teu dever incondicionalmente.


Em que consiste esse dever? Uma vez que as leis que a Razćo se impõe não podem, em nenhum caso, receber um conteśdo da experiência e que devem exprimir a autonomia da razćo pura prįtica, as regras morais só podem consistir na própria forma da lei. "Age sempre de tal maneira que a mįxima de tua aēćo possa ser erigida em regra universal" (primeira regra). O respeito pela razćo estende-se ao sujeito racional: "Age sempre de maneira a tratares a humanidade em ti e nos outros sempre ao mesmo tempo como um fim e jamais como um simples meio" (segunda regra). Desse modo, o princķpio do dever, para ser absolutamente rigoroso, não implica em nenhuma "alienaēćo", como dirķamos hoje, em nenhuma "heteronomia", como diz Kant.


Para se unirem numa justa reciprocidade de direitos e obrigaēões, os homens só tźm que obedecer ąs exigźncias de sua própria razćo: "Age como se fosses ao mesmo tempo legislador e sśdito na repśblica das vontades" (terceira regra).


O śnico sentimento que tem por si mesmo um valor moral nessa ética racionalista é o sentimento do respeito, pois não é anterior ą lei, mas é a própria lei moral que o produz em mim; ele me engrandece, ele me realiza como ser racional que obedece ą lei moral. Vimos que, pelo fato de ser puramente formal, essa moral não me propõe, efetivamente, um ato concreto a realizar. Ela simplesmente autoriza ou proķbe este ou aquele ato que tenho vontade de praticar. Por exemplo, vejo de imediato que não tenho o direito de mentir, mesmo que me diga: e se todos fizessem o mesmo? A mentira de todos para com todos é contraditória, portanto, proibķda. A moral formal, por conseguinte, apresenta-se como essencialmente negativa. Como diz Jan Kélévitch, o imperativo categórico é um "proibitivo categórico".


A moral de Kant, ao privilegiar a razćo humana, exprime sua desconfianēa com relaēćo ą natureza humana, aos instintos, ąs tendźncias de tudo o que é empķrico, passivo, passional, ou, como diz Kant, patológico. Tal é o rigorķssimo kantiano. A razćo fala sobre a forma severa do dever porque é preciso impor silźncio ą natureza carnal, porque é preciso, ao preēo de grande esforēo, submeter a humana vontade ą lei do dever. Por conseguinte, o domķnio da moral não é o da natureza (submissão animal aos instintos) nem o da santidade (em que a natureza, transfigurada pela graēa, sentiria uma atraēćo instintiva e irresistķvel pelos valores morais). O mérito moral é medido precisamente pelo esforēo que fazemos para submeter nossa natureza ąs exigźncias do dever.

Moral e Metafísica


A moral de Kant é o que chamamos de uma moral independente. Ela não possui outro fundamento além da consciźncia humana, essa consciźncia que é essencialmente razćo. Mesmo que o universo não tenha o menor sentido, mesmo que a alma seja mortal, o discķpulo de Kant se sabe obrigado a respeitas as mįximas da razćo.


Todavia, Kant vai reerguer a metafķsica - essa metafķsica cuja demonstraēćo era impossķvel, segunda a L pura. A originalidade de Kant está no fato de que, ao invés de buscar os fundamentos de sua moral na metafķsica, ele vai estabelecer os fundamentos de uma metafķsica na moral, a tķtulo de "postulados da razćo prįtica". Por exemplo: o dever me prescreve a realizaēćo de certa perfeição moral que não consigo atingir na vida presente (posto que não chego a purificar totalmente a determinaēćo de querer dos móveis sensíveis). Kant então postula a imortalidade da alma.


Por outro lado, Kant constata que a virtude e a felicidade quase não estão juntas, neste mundo em que, de um modo geral, os maus são muito prósperos. Ele então postula que um Deus justiceiro, por intermédio de um sistema de recompensa e punições, restabelecerį no além a harmonia entre virtude e felicidade.


Finalmente, partindo da consciźncia da obrigaēćo moral, Kant vai postular a liberdade humana. Com efeito, a obrigaēćo moral exclui a necessidade dos atos humanos. A obrigaēćo não teria o menor sentido se minha conduta fosse automaticamente determinada por minhas tendźncias ou pelas influźncias que sofri. Ser moralmente obrigado é ter o poder de responder sim ou não ą regra moral, é ter a liberdade de escolher entre o bem e o mal. "Tu deves, diz Kant, entćo podes."


Esta liberdade não poderia ser demonstrada. No plano dos fenōmenos, isto é, da experiência, do que hoje denominamos ciźncia psicológica, eu vejo que meus atos, ao contrįrio, são determinados uns pelos outros no tempo. Aquele crime pode ser explicado pelas paixões de seu autor, pela deplorįvel educaēćo que recebeu, etc... E, no entanto, o homem se sente responsável, por conseguinte, livre. Não esqueēamos que o mundo dos fenômenos, isto é, do determinismo, é um mundo de aparências. Por trįs desse determinismo aparente, pelo qual o mundo se me apresenta no conhecimento, esconde-se a realidade numenal de minha liberdade. Por conseguinte, é fora do tempo, é nas profundezas do ser inacessķvel ao saber cientķfico, que o mau escolheu livremente o seu carįter de mau. Em tal sistema, portanto, não existe liberdade parcial nem meia-responsabilidade. Totalmente determinados nas aparźncias fenomenais, serķamos totalmente livres em nossa realidade numenal: daķ se segue que nenhum pecado poderia ser escusįvel.

A Crítica do Juízo


Desse modo, a filosofia de Kant nos surge como uma filosofia essencialmente trįgica, jį que afirma simultaneamente a necessidade da natureza (na Crķtica da Razćo Pura) e a exigźncia de uma liberdade absoluta (na Crķtica da Razćo Prįtica).


Em sua terceira grande obra, A Crķtica do Juķzo, Kant se esforēa por mostrar a possibilidade de uma reconciliaēćo entre o mundo natural e o da liberdade. A natureza não seja talvez não seja apenas o domķnio do determinismo, mas também o da finalidade que aparece notadamente na organizaēćo harmoniosa dos seres vivos. Todavia, se o princķpio de causalidade (determinismo) é constitutivo da experiência (não posso dispensį-lo para explicar a natureza), o princķpio de finalidade permanece facultativo, puramente regulador (posso interpretar o agrupamento de certas condiēões como a manifestaēćo de um fim). Tudo se passa como se o pįssaro fosse feito para voar, mas uma coisa apenas é certa: o pįssaro voa porque é constituķdo de tal maneira.


Os valores de beleza, presentes na obra de arte, igualmente nos oferecem uma espécie de reconciliaēćo entre a razćo e a imaginaēćo, jį que, na contemplaēćo estética, a bela aparźncia que admiramos parece inteiramente penetrada dos valores do espķrito. Finalidade sem fim (isto é, harmonia pura, fora de todo móvel exterior ą obra de arte), a beleza oferece ą nossa imaginaēćo a oportunidade de uma satisfaēćo inteiramente desinteressada. Ela é, no mundo kantiano, o exemplo śnico de uma satisfaēćo ao mesmo tempo sensķvel e pura de todo egoķsmo, o momento privilegiado em que uma emoēćo, longe de manifestar meu egoķsmo dominador, dele me liberta e, como se diz muito bem, me "arrebata".

O Alcance da Critica Kantiana

(Prefįcio da 2.Ŗ ediēćo da Crķtica da Razćo Pura)


Um rįpido olhar lanēado nesta obra levarį a pensar, de inķcio, que sua utilidade é inteiramente negativa ou que ela só serve para nos impedir de conduzir a razćo especulativa além dos limites da experiência, e é isso que lhe dį sua primeira utilidade. Mas logo se perceberį também que sua utilidade é positiva, pelo fato mesmo de os princķpios sobre os quais se apóia a razćo especulativa, para se aventurar fora de seus limites, na realidade terem por conseqüźncia inevitįvel não a extensão, mas, olhando mais de perto, a restriēćo do uso de nossa razćo. É que, com efeito, esses princķpios ameaēam de tudo enfeixar nos limites da sensibilidade, da qual propriamente dependem, e assim reduzir a nada o uso puro (prįtico) da razćo. Ora, uma crķtica que limita a razćo em seu uso especulativo é, por esse lado, bem negativa; mas, ao suprimir com um mesmo golpe o obstįculo que restringe seu uso prįtico ou que até ameaēa anulį-la, essa crķtica, de fato, tem uma utilidade positiva da mais alta importāncia. É o que se reconhecerį logo que se esteja convencido de que a razćo pura tem um uso prįtico absolutamente necessįrio (quero significar o uso moral), no qual ela se estende inevitavelmente além dos limites da sensibilidade e no qual, sem para isso ter necessidade do auxķlio da razćo especulativa, a razćo prįtica, porém, quer estar assegurada contra toda oposiēćo de sua parte, a fim de não cair em contradiēćo consigo mesma. Negar que a crķtica, ao prestar-nos esse serviēo, tenha uma utilidade positiva, porque sua funēćo consiste unicamente em fechar as portas ą violźncia que os cidadćos poderiam temer uns aos outros, a fim de que cada um possa realizar seus negócios tranqüilamente e em seguranēa. Que o espaēo e o tempo só sejam formas da intuiēćo sensķvel e, conseqüentemente, das condiēões da existźncia das coisas como fenōmenos; que, além disso, não tenhamos conceitos do entendimento e, portanto, quaisquer elementos para o conhecimento das coisas, sem que uma intuiēćo correspondente nos seja dada, e que, por conseguinte, não possamos conhecer nenhum objeto como coisa em si, mas apenas como objeto da intuiēćo sensķvel, isto é, como fenōmeno, é o que serį provado na parte analķtica e daķ resultarį que todo conhecimento especulativo possķvel da razćo se reduz unicamente aos objetos da experiência. Mas, o que é preciso marcar bem, surge aķ uma reserva: é que, se não podemos conhecer esses objetos como coisas em si, podemos ao menos pensį-los como tais.


Se assim não fora, chegarķamos ą absurda proposição de que existem fenōmenos ou aparźncias sem que haja nada que apareēa. Quando se supõe que nossa crķtica não tenha feito a distinēćo que ela estabelece necessariamente entre as coisas como objetos de experiência e essas coisas como objetos em si, serį preciso entćo que se estenda a todas as coisas em geral, consideradas como causas eficientes, o princķpio da causalidade e, conseqüentemente, o mecanismo natural que ele determina. Por conseguinte, eu não poderia dizer do próprio ser, por exemplo, da alma humana, que sua vontade é livre e que, entretanto, está submetida ą necessidade fķsica, isto é, que não é livre, sem cair em evidente contradiēćo, É que, nas duas proposiēões, tomei a alma no mesmo sentido, isto é, como uma coisa em geral (como objeto em si) e, sem as advertźncias da crķtica, não poderia encarį-la de outro modo.


Mas se a crķtica não se enganou ao ensinar-nos a considerar o objeto em dois sentidos diferentes, como fenōmeno e como coisa em si; se a deduēćo dos conceitos do entendimento é exata e se, conseqüentemente, o princķpio da causalidade só se aplica ąs coisas no primeiro sentido, ao passo que no segundo sentido essas mesmas coisas não mais lhe estejam submetidas, a mesma vontade pode ser concebida, sem contradiēćo, de um lado, como estando necessariamente submetida, do ponto de vista fenomenal (em seus atos visķveis), ą lei fķsica, conseqüentemente, como não sendo livre e, de outro, enquanto faz parte das coisas em si, como escapando a essa lei, por conseguinte, como livre. Ora, embora sob esse śltimo ponto de vista eu não possa conhecer minha alma por intermédio da razćo especulativa (e ainda menos pela observaēćo empķrica) e, conseqüentemente, eu também possa conhecer a liberdade como a propriedade de um ser ao qual atribuo efeitos no mundo sensķvel - posto que seria necessįrio que eu a conhecesse de uma maneira determinada em sua existźncia, mas não no tempo (o que é impossķvel, pois aqui nenhuma intuiēćo pode ser submetida ao meu conceito) - eu posso, no entanto, pensar a liberdade, isto é, que sua idéia não contém a menor contradiēćo, desde que admita nossa distinēćo crķtica dos dois modos de representaēćo (o modo sensķvel e o intelectual), assim como a restriēćo que daķ deriva relativamente aos conceitos puros do entendimento e, por conseguinte, aos princķpios decorrentes desses conceitos. Admitamos agora que a moral supõe necessariamente a liberdade (no sentido mais estrito) como uma propriedade de nossa vontade, colocando a priori como dados da razćo princķpios prįticos que dela se originam e que, sem essa suposiēćo, seriam absolutamente impossķveis; mas admitamos também que a razćo especulativa tenha provado que a liberdade não fosse de modo algum concebida; serį preciso entćo que necessariamente a suposiēćo moral dź lugar ąquela cujo contrįrio implica em evidente contradiēćo, isto é, que a liberdade, e com ela a moralidade (cujo contrįrio não implica em contradiēćo, quando não se supõe a liberdade previamente), desaparecem no mecanismo da natureza. Todavia, como é suficiente que, do ponto de vista da moral, a liberdade não seja contraditória e que, conseqüentemente, ela possa ser concebida, e como, desde que não se coloque como obstįculo ao mecanismo natural da própria aēćo (tomados num outro sentido), não hį necessidade de se lhe ter um conhecimento mais amplo, a moral pode manter sua posiēćo enquanto a fķsica conserva a sua. Ora, é o que não terķamos descoberto se a crķtica não nos houvesse previamente instruķdo sobre nossa inevitįvel ignorāncia relativamente ąs coisas em si e se ela não houvesse limitado aos simples fenōmenos todo nosso conhecimento teórico. Desse modo, pode-se mostrar essa mesma utilidade dos princķpios crķticos da razćo pura relativamente ą idéia de Deus, a liberdade e a imoratalidade segundo a necessidade que minha razćo tem em seu uso prįtico necessįrio, sem rechaēar ao mesmo tempo as pretensões da razćo especulativa em suas visões transcendentes; pois, para chegar aķ, lhe é necessįrio empregar princķpios que na realidade só se aplicam a objetos da experiência sensķvel e que sempre transformam em fenōmenos aquilo a que se aplicam, mesmo que esse algo não possa ser um objeto de experiência, e desse modo declaram impossķvel toda extensão prįtica da razćo pura. Tive entćo que suprimir o saber para substituķ-lo pela crenēa.


Crítica ao Argumento Ontológico

(Crítica da Razão Pura, Dialética Transcendental)


Cem talheres reais não contêm mais do que cem talheres possíveis. Pois, como os talheres possíveis exprimem o conceito e os reais o objeto e sua posição em si mesma, meu conceito não exprimiria o talheres inteiramente e conseqüentemente nao estaria de acordo com ele, caso o talheres contivesse mais do que o conceito. Mas sou mais rico com cem talheres reais do que com sua idéia (isto é, se eles são simplesmente possíveis). De fato, o objeto na realidade não esta simplesmente contido de uma maneira analítica em meu conceito, mas ele enriqueceu sinteticamente meu conceito (que é uma determinação do meu estado), sem que os cem talheres concebidos sejam aumentados por este ser que esta situada fora do meu conceito.


Quando, então, eu concebo uma coisa, quaisquer que sejam e por mais numerosos que sejam os predicados por meio dos quais eu a concebo (mesmo que a determine completamente), e só por isso eu acrescente que essa coisa existe, eu não estarei acrescentando absolutamente nada ą coisa. Se assim fora, não existiria mais a mesma coisa, mas algo além do que pensei no conceito; e eu não mais poderia dizer que é exatamente o objeto do meu conceito que existe. Se numa coisa eu concebo toda realidade, exceto uma, e pelo fato de dizer que essa coisa defeituosa existe, a realidade que lhe falta não lhe serį acrescentada por isto; mas ela existe precisamente tćo defeituosa quanto a concebo, pois, de outro modo, existiria outra coisa diferente do que concebi. Se, por conseguinte, eu concebo um ser como a suprema realidade (sem falhas), sempre resta saber se esse ser existe ou não. De fato, embora em meu conceito não falte nada do conteśdo real possķvel de uma coisa em geral, ainda falta, porém, alguma coisa com relaēćo a todo meu estado intelectual, a saber, que o conhecimento de um objeto seja possķvel a posteriori. E aqui se mostra a causa da dificuldade que reina nesse ponto. Se se tratasse de um objeto dos sentidos, eu não poderia confundir a existźncia da coisa com seu simples conceito. De fato, o conceito só me faz conceber o objeto como concordante com as condiēões universais de um conhecimento empķrico possķvel em geral, enquanto a existźncia me faz concebź-lo como compreendido no contexto de toda experiência; e, se o conceito do objeto não é de modo algum aumentado para sua ligaēćo com o conteśdo de toda experiência, nosso pensamento dele recebe em acréscimo mais percepēćo possķvel. Se, ao contrįrio, quisermos pensar a existźncia unicamente por intermédio da pura categoria, não serį de espantar que não possamos indicar nenhum critério que sirva para distingui-la da simples possibilidade.


Qualquer que seja a natureza e a extensão do conteśdo de nosso conceito de um objeto, somos obrigados a sair desse conceito para lhe atribuir a existźncia. Com relaēćo a objetos sensķveis, a passagem se faz por meio do encadeamento que liga o conceito a alguma de minhas percepēões, segundo as leis empķricas; mas, para os objetos do pensamento puro, não existe nenhum meio de reconhecer sua existźncia, jį que seria preciso reconhecź-la inteiramente a priori; nossa consciźncia de toda existźncia (quer ela resulte imediatamente da percepēćo, quer resulte de raciocķnios que unem alguma coisa ą percepēćo) pertence inteiramente ą unidade da experiência, e se uma existźncia fora desse campo não deve ser tida por absolutamente impossķvel, ela também não deixa de ser uma suposiēćo que nada pode justificar.


O conceito de um ser supremo é uma idéia muito śtil com relaēćo a muitas coisas, mas, precisamente porque é apenas uma idéia, ele é inteiramente incapaz de estender a si só nosso conhecimento com relaēćo ao que existe. Nem pode mesmo nos instruir o suficiente com relaēćo ą possibilidade. É certo que o carįter analķtico da possibilidade - que consiste no fato de que simples posiēões (realidades) não engendram contradiēćo - não lhe pode ser contestado; mas, como a ligaēćo de todas as propriedades reais numa coisa é uma sķntese cuja possibilidade não podemos julgar a priori, posto que as realidades não nos são dadas especificamente, e, mesmo que isso acontecesse, que não resultaria daķ nenhum juķzo, o carįter da possibilidade dos conhecimentos sintéticos que deve ser sempre buscado na experiência, ą qual o objeto de uma idéia não pode pertencer, faz-se muito necessįrio que o ilustre Leibnitz tenha feito aquilo de que se orgulhava, isto é, chegar a conhecer a priori a possibilidade de um ser ideal tćo elevado.


Essa prova ontológica (cartesiana) tćo glorificada, que pretende demonstrar por meio de conceitos a existźncia de um ser supremo, perde, entćo, todo seu valor e não nos tornaremos mais ricos em conhecimentos com simples idéias quanto um comerciante não se tornaria em dinheiro se, com o pensamento de aumentar sua fortuna, ele acrescentasse alguns zeros em seu livro de caixa.


O Rigorismo de Kant

(Fundamento da Metafķsica dos Costumes)


Conservar a própria vida é um dever e, além disso, é uma coisa para a qual todos possuem uma inclinaēćo imediata. Ora, é por isso que a solicitude, freqüentemente inquieta, com que a maior parte dos homens se dedica a isso, não é menos desprovida de todo valor intrķnseco e é por isso que sua mįxima não possui nenhum valor moral. É certo que eles conservam sua vida de acordo com o dever, mas não por dever. Em compensaēćo, quando contrariedades ou uma afliēćo sem esperanēa tenha roubado de um homem todo gosto de viver e se o infeliz, com ānimo forte, fica muito mais indignado com sua sorte do que desencorajado ou abatido, se deseja a morte e, no entanto, conserva a vida sem amį-la, não por inclinaēćo ou temor, mas por dever, entćo sua mįxima possui um valor moral.


Ser bom, quando se pode, é um dever e, ademais, existem certas almas tćo capacitadas para a simpatia que, mesmo sem qualquer motivo de vaidade ou de interesse, elas experimentam uma satisfaēćo ķntima em irradiar alegria em torno de si e vivem o contentamento de outrem, na medida em que ele é obra sua. Mas eu acho que no caso de uma aēćo desse tipo, por mais de acordo com o dever e mais amįvel que seja, não possui porém verdadeiro valor moral, jį que ela se coloca no mesmo plano de outras inclinaēões, a ambiēćo, por exemplo, que, quando coincide com o que realmente está de acordo com o interesse pśblico e o dever, com o que, por conseguinte, é honorįvel, merece louvor e encorajamento, mas não respeito, pois falta a essa mįxima o valor moral, isto é, o fato de que essas aēões sejam feitas não por inclinaēćo, mas por dever. Suponha-se entćo que a alma daquele filantropo esteja ensombrada por um desses desgostos pessoais que sufocam toda simpatia pela sorte de outrem e que ele sempre ainda tenha o poder de fazer bem a outros infelizes, mas que não seja tocado pelo infortśnio dos outros, por estar demasiado absorvido pelo seu próprio, e que nessas condiēões em que nenhuma inclinaēćo não mais o leve a isso, ele porém se arranque dessa insensibilidade mortal e aja, livre da influźncia de qualquer inclinaēćo, unicamente por dever; entćo, só entćo sua aēćo terį verdadeiro valor moral. E digo mais: se a natureza tivesse colocado no coraēćo deste ou daquele um pouco de simpatia, se aquele homem (honesto de resto) fosse frio por temperamento e indiferente aos sofrimentos de outrem, talvez porque, tendo para com seus próprios sofrimentos um dom especial de resistźncia e de paciente energia, ele suponha que também nos outros, ou deles exija as mesmas qualidades; se a natureza não tivesse formado esse homem particularmente o que na verdade não seria sua obra pior) para fazer dele um filantropo, não encontraria ele, entćo, em si próprio o meio de se dar um valor muito superior ao que possa ter um temperamento naturalmente bonsoso? Certamente! E į aqui precisamente que surge o valor do carįter, valor moral e incomparavelmente o mais elevado, que provém daquele que faz o bem não por inclinaēćo, mas por dever.


Assegurar a própria felicidade é um dever (indireto, ao menos); pois, o fato de não estar contente com a própria situaēćo, com o viver pressionado por inśmeros cuidados em meio de necessidades não satisfeitas, poderia facilmente tornar-se uma grande tentaēćo de violar seus deveres. Mas, aqui ainda, sem pensar no dever, todos os homens jį tźm, por eles próprios, a inclinaēćo para a felicidade mais duradoura e mais ķntima, pois, precisamente nessa idéia de felicidade, as inclinaēões se unificam numa totalidade. Ocorre apenas que o preceito que ordena o tornar-se feliz muitas vezes assume tal carįter, que traz grande prejuķzo a algumas inclinaēões, e, contudo, o homem não pode fazer um conceito definido e certo dessa soma de satisfaēões a ser dada a todas a que chama de felicidade; desse modo, não hį por que se surpreender que uma inclinaēćo śnica, determinada quanto ao que promete e quanto ą época em que pode ser satisfeita, possa levar vantagem sobre uma idéia flutuante, que, por exemplo, uma pessoa que sofre de gota possa gostar mais de saborear o que é de seu gosto e sofra em seguida, pois, segundo seu cįlculo, ao menos nessa circunstāncia ela não se privou, por causa da talvez enganosa esperanēa de uma felicidade a ser encontrada na saśde, do gozo do momento presente. Mas, nesse caso igualmente, se atendźncia universal não determinasse sua vontade, se a saśde, para ela ao menos, não fosse coisa tćo importante de fazer entrar em seus cįlculos, o que restaria ainda aqui, como em todos os outros casos, seria uma lei, uma lei que ordena trabalhar para a própria felicidade não por inclinaēćo, mas por dever, e é por isto somente que sua conduta possui um verdadeiro valor moral.


Assim, devem ser certa e igualmente compreendidas as passagens da Escritura em que é ordenado amar ao próximo, ainda que inimigo. Pois, o amor como inclinaēćo não pode ser ordenado; mas fazer o bem precisamente por dever, na medida em que não hį inclinaēćo que nos conduza a isso, e mesmo que uma aversão natural e invencķvel a isto se oponha, eis aķ um amor prįtico e não patológico, que reside na vontade e não na tendźncia da sensibilidade, em princķpios da aēćo e não numa compaixćo debilitante; ora, esse amor é o śnico que pode ser ordenado.


Comentários acerca da “Estética Transcendental” de Immanuel Kant (1724-1808)
Alexandre Fernandes Batista Costa Leite




1. Introdução

Devido a enorme influência de Kant na composição do pensamento filosófico, optei por fazer o trabalho no âmbito de sua Crítica da Razão Pura (CrP-1787-B); poderíamos dizer que esta influencia, ou mesmo, marca o nascimento da chamada Epistemologia, ou seja, Teoria do Conhecimento. Não estou a dizer que Kant foi o primeiro a elaborar perguntas acerca da fundamentação do conhecimento, mas sim que ele foi o principal pensador da dita “tradição” a realizar um projeto que questiona a própria possibilidade de conhecer, e é exatamente essa característica que inaugura o modo de pensar kantiano, ou seja, sua filosofia transcendental. Diferentemente do que acontecia nas questões do conhecimento, refiro-me às tentativas de fundamentar o conhecimento sem antes questionar sua própria possibilidade, Kant instaura perguntas sobre as condições de possibilidade do conhecimento em geral. Kant faz uma espécie de síntese das posturas racionalista, Descartes e Leibniz, e empirista, Hume. Esses três filósofos são decisivos para a efetivação do labor de Kant. Mas a influência desses pensadores no trabalho de Kant escapa do alvo do atual trabalho.
O presente texto é uma tentativa, quiçá incauta, de expor as descrições dos conceitos utilizados por Kant em sua “Estética Transcendental”, bem como mostrar sua argumentação com o uso desses conceitos na primeira parte da “Doutrina Transcendental dos Elementos”, isto é, “Estética Transcendental”.

2. Desenvolvimento

O escopo do texto é 1,5 , e não como foi exposto na Introdução. Em primeiro lugar, a apresentação dos conceitos e em segundo lugar a estruturação da argumentação realizada com o uso dos mesmos conceitos.
Por Estética Transcendental Kant entende “uma ciência de todos os princípios da sensibilidade a priori” .1
Por sensibilidade Kant entende “ a capacidade de obter representações mediante o modo como somos afetados por objetos” .2
Por conhecimento a priori Kant entende “ um tal conhecimento independente da experiência e mesmo de todas as impressões dos sentidos” .3
Por intuição Kant entende o modo como um conhecimento se refere imeditamente aos objetos.4. “Aquela intuição que se refere ao objeto mediante sensação denomina-se empírica” 5
Por sensação Kant entende “ O efeito de um objeto sobre a capacidade de representação, na medida em que somos afetados pelo mesmo” .6
Por fenômeno Kant entende “ O objeto indeterminado de uma intuição empírica”7 . Os fenômenos tem uma matéria e uma forma, aquela é descrita como o que no fenômeno corresponde à sensação e esta como a ordenação do múltiplo dos fenômenos em determinadas relações.8 Assim, a matéria de todos os fenômenos só pode ser dada a posteriori; o que não é o caso para a forma dos fenômenos que estão na mente a priori, e isso faz com que ela seja considerada sem a preocupação com as sensações.9
Por representações puras Kant entende todas aquelas em que não for encontrado nada pertencente às sensações.10
E , por fim, Kant entende por intuição pura ou forma pura da sensibilidade aquela disposição que está na mente a priori; o a priori é aqui usado no sentido de inato, ou seja, como aquela estrutura que já nascemos com ela e desconhecemos sua origem.
Penso agora ser possível explicar a argumentação de Kant em sua “Estética Transcendental”, pois o modo que o uso dos conceitos será feito já foi elucidado. Se isso não tivesse acontecido, então correríamos o risco de usá-los de modo infracionário, ambíguo. Mesmo assim, tal risco não pode ser eliminado definitivamente, pois não se trata de uma linguagem formal, como a Matemática, por exemplo. Mas, contudo, a possibilidade desse equívoco acontecer fica reduzida.

Faz-se necessário, não no sentido lógico do termo, mas sim na sua acepção singela, expor o método da “Estética Transcendental” proposto por Kant para que compreendamos com maior facilidade o sentido de sua argumentação.
O método pode ser decomposto nas seguintes etapas:
a) isolar a sensibilidade com o intento de buscar a intuição empírica;
b) separar na intuição empírica tudo que pertence à sensação com o propósito de encontrar a intuição pura, pois esta é o único elemento que a sensibilidade pode fornecer a priori;
c) encontrar as formas puras da intuição sensível, são elas o espaço e o tempo

Seguir o método acima exposto implica efetivar o objetivo da “Estética Transcendental”, pois esta é exatamente o conhecimento dos princípios da sensibilidade a priori.
Passemos agora à investigação da primeira forma da sensibilidade a priori, ou seja, o conceito de espaço. Seguirei a argumentação kantiana; isso significa que primeiro mostrarei a exposição metafísica desse conceito e depois sua exposição transcendental.
Por exposição metafísica de um conceito Kant entende a representação clara daquilo que pertence a um conceito e que o apresenta como dado a priori. Ficarei preso a apenas um argumento, na minha visão, essencial.
O espaço é forma pura da intuição sensível. Isso significa que o espaço é uma representação a priori, visto que é necessário para pensar qualquer objeto no campo de ação do sentido externo e está em nossa mente anteriormente a qualquer tipo de experiência. O espaço é condição de possibilidade dos fenômenos. Isso é deduzido porque não é possível pensar nenhum objeto fora do espaço, apesar de podermos pensar o espaço sem nenhum objeto. Se o espaço é condição de possibilidade do que aparece, então ele só pode ser dado e isso mostra que ele é a priori, pois é anterior a qualquer experiência e também serve de condição de possibilidade dos objetos. O espaço é, portanto, uma intuição pura “Pois a representação do espaço já tem estar subjacente para certas sensações se referirem a algo fora de mim, e igualmente para eu poder representá-las como fora de mim e uma ao lado da outra e por conseguinte não simplesmente como diferentes, mas como situadas em lugares diferentes. Logo, a representação do espaço não pode ser tomada emprestada, mediante a experiência, das relações do fenômeno externo, mas esta própria experiência externa é primeiramente possível só mediante referida representação” 11
Por exposição trancendental Kant entende “a explicação de um conceito como o princípio a partir do qual se possa compreender a possibilidade de outros conhecimentos sintéticos a priori 12. Uma das perguntas substanciais da Crítica da Razão Pura é: Como são possíveis os juízos sintéticos a priori? Um juízo é sintético quando o predicado não está contido no sujeito e, assim, é um juízo que acrescenta algo ao conhecimento. Um juízo é a priori quando é independente da experiência.
O conceito de juízo sintético a priori é obtido através da união das duas descrições acima acerca do juízo.
Kant tenta mostrar que a Geometria é uma ciência capaz de determinar de modo sintético e a priori as propriedades do espaço, pois ela é capaz de realizar tal fato desconectada de toda a percepção de um objeto e ainda acrescenta algo ao nosso conhecimento. Portanto, se é razoável explicar a possibilidade da Geometria, então a exposição do conceito de espaço é transcendental. O argumento da exposição transcendental é basicamente o mesmo da exposição metafísica.
Passemos agora à segunda forma da sensibilidade a priori, seja ela o conceito de tempo. Seguirei novamente o mesmo caminho de Kant, exposição metafísica e transcendental.
A exposição metafísica do conceito de tempo diz que ele é forma pura da intuição sensível porque tem que estar subjacente a priori para que a simultaneidade ou a sucessão de algo seja dada à percepção. Todos os fenômenos podem ser exterminados, mas não podemos fazer o mesmo com o tempo pois ele é condição de possibilidade para que “algo seja num mesmo tempo(simultâneo) ou em tempos diferentes (sucessivo)”13 , isto é, é condição sem a qual não seria possível pensar os fenômenos em sua relação de causa e efeito, simultaneidade e sucessividade. Isso gera a idéia de que o conceito de tempo, como conceito de espaço, faz parte de nossa estrutura cognitiva e é dado mas desconhecemos sua origem.
A exposição transcendental do conceito de tempo afirma que ele é a possibilidade de um conhecimento sintético a priori para a doutrina geral do movimento, pois “ se essa representação não fosse intuição (interna) a priori, nenhum conceito, seja qual for, poderia tornar compreensível a possibilidade de uma mudança, isto é, de uma ligação de predicados opostos contraditoriamente (por exemplo o ser e o não-ser de uma coisa no mesmo lugar) num e mesmo objeto. Somente no tempo, isto é sucessivamente, duas determinações podem ser encontradas numa coisa.” 14
Dessa forma, temos constituídas as duas formas da intuição sensível, são elas o espaço e o tempo. Estas formas fazem parte de nossa estrutura cognitiva e são condições de possibilidade para pensar os fenômenos em geral. Isso significa que espaço e tempo tem um realidade subjetiva, isto é, são inerentes ao sujeito do conhecimento, não obstante terem validade objetiva. É importante notar que tais conceitos só valem quando aplicados dentro dos limites da experiência possível, ou seja, no quadro dos objetos dos sentidos.


3. Conclusão

A “Estética Transcendental” é a primeira parte da jornada kantiana que tem o intento de desvendar como é possível o conhecimento e quais são os seus limites. Tal parte se ocupa da sensibilidade e tenta elucidar quais são suas formas a priori. Somente com essa parte o conhecimento não seria possível, pois ele surge da união da sensibilidade com o entendimento. A sensibilidade fornece as formas da intuição a priori e o entendimento fornece as categorias ou conceitos a priori que são responsáveis para a manipulação do múltiplo sensível que é dado. Mas esse ponto está na “Lógica Transcendental” que, como sabemos, não foi objeto do trabalho, apesar da Crítica da Razão Pura ser um livro que pretendo carregar ao longo da vida, pois é uma construção teórica muito bem elaborada e, na minha opinião, o sistema filosófico mais importante da história da filosofia. Digo isso apesar de saber que nas discussões recentes sobre a linguagem a CrP não ter tanto peso. A CrP é um bom exemplo de construção teórico-conceitual capaz de resolver determinados problemas, um sistema de pensamento ou uma Arquitetônica da Razão Pura que não tem como não ser enfrentada por aqueles que pretendem viver no mundo do pensamento filosófico.

4. Bibliografia

1. Kant, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Tradução de Valerio Rohden e Udo Moosburger. Editora Nova Cultural, Coleção Os Pensadores. 1996.
2. Deleuze. A Filosofia Crítica de Kant. Tradução de Germiniano Franco. Edições 70. 1994
3. Popper, Karl. Conjecturas e Refutações( texto “Crítica e Cosmologia de Kant). Tradução de Sérgio bath. Editora UnB. 1994
4. Rorty, Richard. A Filosofia e o Espelho da Natureza. Tradução de Antônio Trânsito. Editora Relume- Dumará. 1994
5. Russell, Bertrand. História da Filosofia Ocidental( texto “Kant”). Tradução de Brenno Silveira. Editora UnB.

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